Quem sou eu, para apresentar a você, leitor, um romance de Benedicto Monteiro? Tenho Bené velho amigo e companheiro provado, por mestre meu e nosso. Guru reconhecido como o romanceiro da Amazônia. Sua tetralogia - Verde Vagomundo e Minossauro que se completa com A Terceira Margem e o Aquele Um, é o espelho melhor que se compôs até hoje para ver a Amazônia.

Nele é que mais nítida se reflete a infinidade das águas da mãe das águas do mundo. É também nele que os mil verdes rebrilham, verdejando as verdes matas deste verde-vago-mundo. É, ainda, em Bené que a claridade do céu mais lavado de chuvas, ventos e tempestades nasce de dentro d'água, toda hora, por todo lado, na linha do horizonte, para compor de vidro a cúpula do mundo.

Debaixo deste céu destampado, sobre estas infinitas águas moventes, no fundo destes vagos verdes matos, navegamos com Bené em sua canoa gita, por furos e varadouros, de ilha a ilha, de lago a lago, de várzea a várzea, de margem a margem, até a terceira margem.

Com ele, subindo de a pé pela calha arriba, entramos na mataria alta, sombria, para ver lá debaixo, homens andantes, silentes; e lá em cima, macacões guaribas saltando urrantes. Os homens tristes , severos. Os macacos alegres, gaiatos.

Mais olhos ninguém teve do que Bené para ver e sofrer e comunicar a dor e o gozo milagroso de ser amazônida. A vil tristeza desta nossa gente despossuída de si mesma para ser engajada e gastada na produção venal do que não come do que não usa. Como, felizmente, Bené é romancista, não há nuncao risco de afundarmos para sempre na dor sem remédio do drama total. Vez por outra, ele salta, brincalhão e pândego, para os banhos de igarapé ou de águas fundas; as fodas meninas em emblemas de mulher desenhados no barro mole das barrancas; ou enlanguece de gozo amoroso no erotismo quente que resgata o amazônida cativo.

Para tanto, Bené se encarna em Miguel, malazarte-macunaíma das barracas, no seu ofício de emprenhador festejado das mulheres de todas as raças invasoras. Nelas quer por, se emprenha, e põe sua semente cabocla, num miraculoso ritual compensatório de quem foi possuído pelos machos de todas elas e não possuiu ninguém. Ainda não.

Nos textos de Benedicto Monteiro é onde melhor se destrança a trama humana desumana da vida social da Amazônia que é a verdadeira selva selvagem: a mata penetrada, assassinada, pela civilização predatória. Lá, metidos por milênios, povos índios morenos de mil falas e mil caras, decifram a mata, aprendendo a viver nela e com ela, cultivando, cagando e procriando. Um dia, sobreveio a hecatombe mercantil e cristã. Era a civilização.Como uma avalanche ela apodreceu os corpos com as pestes da raçabranca. Escravizou os sobreviventes, para desgastar milhões no trabalho venal. Reproduziu-se no ventre de mil cunhãs. Entorpeceu o espírito das gentes com a esmoralização missionáriadas velhas crenças. Apodreceu suas almas no desengano da vida nova que não vale a pena ser vivida. A salvação para muitos, foi a terceira margem.

Só na caboclada prossegue, permanece, a herança milenária. Lá, no tapiri do mato mais denso, estão eles sofrendo e resistindo até hoje a invasão secular que prossegue. Agora, armada de supermáquinas, de serras medonhas, de desfolhantes e venenos, no projeto lunático de converter a mata mais florestal da Terra num subpampa piauiense. Lá no tapiri, ele preserva, guardada no peito, a fómula de bern viver na mata, deixando a mata viver. Guarda e espera.

Este novo romance de Bené Monteiro é a narração ficcional da verdade real dos dois projetos amazônicos em disputa. Um supernacional e superpoderoso, subsidiado pelo governo insensato, é o que está rodando sobre os trilhos da historia presente. se prosseguir, entraremos no século XXI com uma Belém de10 milhões e ma Manaus de 5 milhões, todos famintos, dentro de uma Amazônia deserta de gente e para sempre estéril. 0 outro projeto, débil e deserdado, é o de nossa singela utopia da Amazônia tão fácil e acessível que é de espantar que não se implante.

Nela todos comem todo dia as comidas de mil gostos da Amazônia selvagem. Só nela, a Amazônia será o jardim da Terra emque cada homem quererá passear com sua amada e gerar um filho vendo a vida mais prodigiosa esplendor em todo viço. Este projeto vetado é o que se guarda na sabedoria das mentes, na habilidade das mãos, e nos corações caboclos, só feitos para viver a vida em comunidades solidárias.

Subindo igarapés da Amazônia, quanto mais se suba, quanto mais distância se ponha de qualquer empresa progressista, quanto mais desarticulado se esteja do mercado mundial, tanto melhor vive o caboclo e mais se preserva sobrevivente, a vida que vale à pena, na forma de gente que planta e faz o que come e usa. Vida,aliás, que nada tem de espantosa, uma vez que não constitui milagre nenhum viver a vida tal como a viveram desde sempre os camponeses franceses, gregos ou ítalos: plantando o trigo e a uva, do pão que comem e do vinho que bebem. Assim vive qualquer gente que nunca foi colonizada.

Estas, as duas perspectivas em disputa; A que vai em sua frente, vitoriosa, é a do processo civilizatório em vigor. 0 da prosperidade não generalizável que, desgastando gentes e matas, com as coisas mais reles, produz rios de ricos dinheiros estrangeiros. a outra que não é ainda, será a restauração e o aprimoramento dos modos de ver e de viver das gentes que na Amazônia melhor souberam viver e curtir, porque existiam para reproduzir-se a si mesma, dentro de uma prosperidade que era comum a todos.

A luta destes projetos contrapostos - o de uma Amazônia que venha a ser e existir para si mesma e o de um Amazônia que continue a ser saqueada e assassinada - é o tema do livro A Terceira Margem. Para contrastá-los é que Benedicto Monteiro aqui se encarna em múltiplos personagens, reconstituindo o mundo de seus encantos. Mundo amazônico, que ele carrega por onde vá, mundo afora, pela Europa,França e Bahia.

Tenho para mim até, que Alenquer nenhuma há tão viçosa como esta que Bené exorciza e tira do peito, falando e escrevendo. Cidade miruculosa, feita de palavras cristalizando recordos. Prodigiosa torrente narrativa que, fluindo, dá uma existência mais verdadeira, fazendo real e visível, a vida das vilas alenquerenses, para nelas cada um de nós tomar seu banho de igarapé e desenhar e amar emblemas de barro mole das barrancas.



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